Ciclos a Oriente

É entre Xabregas e a Matinha, seguindo o percurso da linha de comboio, que exploro uma zona que sempre me foi próxima, por ali ter vivido e estudado, testemunhando as mudanças na paisagem. Percorri esta zona, revisitando vezes sem conta alguns locais. Muitos dos registos fotográficos daí resultantes serviram sobretudo para reavivar a minha memória e entender como a ferrovia, os bairros e os resquícios das indústrias se relacionavam entre si e as transformações que estavam a acontecer. Não seria possível escolher o que fotografar, o que enquadrar, o que seleccionar, sem a pesquisa e o trabalho de proximidade. Caminhar entre as velhas vilas operárias, sendo olhado com curiosidade pelos mais velhos ou com desconfiança por quem estivesse em práticas menos recomendadas no café do beco, entrar em edifícios e armazéns abandonados pisando registos de trabalhadores que nos anos 70 e 80 davam vida àqueles espaços, caminhar no meio de matagal para descobrir o que estava por detrás de um monte de entulho, entrar por um buraco de uma vedação e sentir o cheiro a gás que ainda subsiste em antigos depósitos desactivados há quase 25 anos. 

Ao longo destas visitas foram surgindo as fotografias candidatas ao processo de edição. É num olhar mais distante e contemplativo sobre estas paisagens urbanas que resulta uma edição final de sete fotografias. Geograficamente abarcam toda a área e os elementos que a caracterizam com todas as marcas do tempo e as camadas sucessivas de diferentes utilizações: a linha férrea como o protagonista principal do início das grandes transformações da zona oriental no século XIX; os antigos edifícios das fábricas e a proximidade das vilas operárias; os vestígios da indústria pesada com os seus gigantes de ferro e aço que dominam a paisagem; arruamentos de armazéns que ficam desertos ao fim-de-semana; os silos de armazenamento de cereais da Manutenção Militar, hoje transformada em “hub criativo”; as hortas que surgiram como sustento de muitos dos milhares de trabalhadores das indústrias dos anos 50 e 60 provenientes em maioria do norte do país; e, por fim, a moderna urbanização com vista privilegiada para o Mar da Palha e que, de certa forma, simboliza o início de uma nova revolução nesta zona.


(Junho de 2018)